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terça-feira, 13 de setembro de 2011

A PELEJA DE RIACHÃO COM O DIABO

 Resgatando a Literatura de Cordel e a Cultura Nordestina

O grande mestre de Pombal, Leandro Gomes de Barros, que nos emprestou régua e compasso para a produção da literatura de cordel, foi de extrema sinceridade quando afirmou na peleja de Riachão com o Diabo, escrita e editada em 1899:
Oriunda de Portugal, a literatura de cordel chegou no balaio e no coração dos nossos colonizadores, instalando-se na Bahia e mais precisamente em Salvador. Dali se irradiou para os demais estados do Nordeste. A pergunta que mais inquieta e intriga os nossos pesquisadores é "Por que exatamente no nordeste?". A resposta não está distante do raciocínio livre nem dos domínios da razão. Como é sabido, a primeira capital da nação foi Salvador, ponto de convergência natural de todas as culturas, permanecendo assim até 1763, quando foi transferida para o Rio de Janeiro.

Foram esses bardos do improviso os precursores da literatura de cordel escrita. Os registros são muito vagos, sem consistência confiável, de repentistas ou violeiros antes de Manoel Riachão ou Mergulhão, mas Leandro Gomes de Barros, nascido no dia 19 de novembro de 1865, teria escrito a peleja de Manoel Riachão com o Diabo, em fins do século passado.  

A temática central gira em torno de um duelo repentista entre o violeiro Manoel e um estranho, que mais tarde descobrimos ser o Diabo, seduzindo Riachão a compactuar consigo. Assim, o Cordel funciona como elo de inteligibilidade entre Arte e Sociedade.

Apesar de tamanha importância lançada à voz, Cantador de Repente e Cordelista não são sinônimos. Leandro Gomes de Barros não é um repentista, mas na Peleja utiliza esse recurso. Compõe a narrativa de Riachão sob o prisma do duelo de repentes, onde o protagonista é atraído pelo Diabo por meio da disputa em versos acompanhados de uma viola, uma vez que tanto Manoel quanto seu adversário são exímios tocadores.
Veja a poesia do cordelista,


Autor: Leandro Gomes de Barros

Riachão estava cantando 
Na cidade de Açu, 
Quando apareceu um negro 
Da espécie de urubu, 
Tinha a camisa de sola 
E as calças de couro cru.

Beiços grossos e virados 
Como a sola de um chinelo 
Um olho muito encarnado 
O outro muito amarelo, 
Este chamou Riachão 
Para cantar um martelo.

Riachão disse: eu não canto 
Com negro desconhecido, 
Porque pode ser escravo, 
E anda por aqui fugido 
Isso é dar cauda a nambu 
E entrada a negro enxerido.

N - Eu sou livre como o vento 
A minha linhagem é nobre, 
Eu sou um dos mais ilustres 
Que o sol deste mundo cobre 
Nasci dentro da grandeza 
Não saí de raça pobre.


R - Você nega porque quer 
Está conhecido demais, 
Você anda aqui fugido 
Me diga que tempo faz 
Se você não foi cativo, 
Obras desmentem sinais.

N - Seja livre ou seja escravo 
Eu quero é cantar martelo, 
Afine a sua viola 
Vamos bater-se em duelo 
Só com a minha presença 
O senhor está amarelo.

R - Vejo um vulto tão pequeno 
Que nem o posso enxergar, 
Julgo que nem é preciso 
Minha viola afinar 
Pela ramagem da árvore 
Vê-se o fruto que ela dá.

N - Riachão isto são frases 
De homem muito atrasado, 
Porque são vistos fenômenos 
Que na terra têm se dado 
Uma cobra tão pequena 
Mata um boi agigantado.

R - Meu riacho pela seca 
Dá cheias descomunais 
Na correnteza das águas 
Descem grandes animais 
Jibóias, surucujubas, 
E monstruosos "Jaguais"

N - O Jaguar rende-me culto 
A serpente aos meus pés morre 
No que chegar minha ira 
Só um poder o socorre 
Eu digo ao rio, pare aí! 
A água pára e não corre...

R - Você não é Josué 
Que mandou o sol parar 
E esse parou três dias 
Para a guerra se acabar 
Nem Moisés que com a vara 
Fez o mar também secar.

N - Faço tudo que eu quiser 
Minha força não tem limite 
Os feitos por mim obrados 
Não vejo homem que imite 
Eu determino uma coisa 
Não há força que a evite!

R - Salomão também fazia 
O que queria fazer 
Por meio de mágica ou química 
Quis segunda vez nascer 
Mas em vez do nascimento 
Conseguiu ele morrer.

N - Salomão facilitou 
Confiado na ciência 
Encaminhou tudo bem 
Mas faltou-lhe a paciência 
Se não fosse aquele erro 
Tinha tido outra existência.

R - Eu necessito saber 
onde é seu natural 
Porque não sei se o senhor 
Tem nascimento legal 
De qual nação é que vem 
Se procede bem ou mal.

N - Você vem interrogar-me 
Eu lhe interrogo também, 
Diga para onde vai 
E de qual parte é que vem 
Se é solteiro, ou casado 
Diga que profissão tem?

R - Não tenho superior 
Sou filho da liberdade 
E não conto a minha vida 
Pois não há necessidade 
Porque não sou foragido 
Nem você é autoridade!

N - É preciso advertir-lhe, 
Fazer-,lhe observação 
Me trate com muito jeito, 
Cante com mais atenção! 
Veja que não se descuide 
E passe o pé pela mão!

R - Eu, para cantar repente, 
Já estou muito habilitado: 
Conheço algumas matérias, 
Sou um pouco adiantado 
Tive estudo quatro anos, 
Me considero letrado!

N - Sou professor de matérias 
Que sábio não as conhece; 
A lei que dito no mundo, 
O próprio rei obedece 
Meus feitos são conhecidos, 
A fama se estende e cresce.

R - Você diz que tem ciência, 
Dê-me um a explicação: 
Se a Terra faz movimento 
De quem é a rotação? 
Porque.é que em 12 horas 
Há um a transformação?

N - Não é o Sol quem se move, 
Este é fixo em seu lugar, 
A Terra está sobre os eixos, 
Os eixos a fazem rodar, 
Que, por essa rotação 
Faz a luz do Sol faltar.

R - Descreva o grande mistério 
Que entre nós a Terra tem: 
De que é formada a chuva? 
Em que estado ela vem? 
Se é criada aqui perto 
Ou noutro lugar além?

N - A água em estado líquido 
Por meio de abaixamento 
Que há na temperatura, 
E pelo resfriamento 
Essa água é condensada, 
Ajudada pelo vento.

A corrente atmosférica 
De um a montanha elevada, 
Que ajuda a temperatura, 
Forma nuvem condensada. 
Do vento movendo as nuvens 
É disso a chuva formada,

Que essa chuva, depois 
Que toda a Terra ensopar, 
Por meio da evaporação 
Torna ao espaço voltar, 
Reproduzindo, o processo 
Que acabei de lhe tratar.

R - O senhor conhece bem 
Este país brasileiro? 
 
Ora, respondeu o Negro: 
 
N - Eu conheço o estrangeiro
Desde o córrego mais pequeno 
Até o maior ribeiro!

Por exemplo, o Amazonas, 
Que extrema com o Pará; 
O Pará com o Maranhão, 
Piauí com o Ceará, 
E assim todos os outros 
Se alguém duvida, vá lá!

E se qualquer um daqui;
Pretendendo viajar
Até o Rio de Janeiro 
E não querendo ir por mar, 
Eu lhe ensino o caminho 
Ele vai sem se vexar.

R - Como faz essa viagem? 
Onde se encontra o caminho? 
Lugar de uma só morada, 
Sem haver mais um vizinho 
Tanto que, em muitos lugares 
Não anda um homem sozinho!

N - Pode qualquer um sair 
Do Açu ao Mossoró; 
Querendo pode passar 
Na cidade Caicó, 
Subir pela margem esquerda 
Do rio de Seridó

Riachão disse consigo: 
- Esse negro é um danado! 
Esse saiu do Inferno, 
Pelo Demônio mandado, 
E para enganar-me veio 
Em um negro transformado!

Disse o negro: - Meu amigo, 
não queira desconfiar, 
Garanto que o senhor 
Não ouviu bem eu cantar, 
Na altura que eu canto 
outro não pode chegar!

R - Vá na altura em quer for! 
Riachão lhe respondeu. 
Remexa todos os livros 
Que o senhor aprendeu 
Eu não conheço esse ente 
Que cante mais do que eu!

N - Você ficará sabendo 
O peso de um cantador 
Quando me ver outra vez 
Me trate de professor, 
Render-me-á obediência, 
Conhecerá meu valor!

R - O senhor diga o seu nome, 
Eu quero lhe conhecer, 
Pois só assim posso dar-lhe 
O valor que merecer,
Em tudo que você diz 
A inda não posso crer.

N - Você, sabendo quem sou 
Talvez que fique assombrado, 
Superior a você 
Comigo tem se espantado 
Os grandes da sua Terra 
Eu tenho subjugado!

R - Eu canto há dezoito anos, 
Há vinte toco viola, 
Sempre encontro cantador 
Que só tem fama e parola 
Quando canta meio dia, 
Cai nos meus pés, no chão rola.

N - Eu já canto há muitos anos, 
Não vou em toda função, 
Arranco pontas de touro, 
Quebro o furor do leão, 
Nunca achei esse duro 
Que para mim tenha ação.

R - Garanto que de hoje em diante, 
O senhor tem que encontrar 
A força superior 
Que o obrigue a se calar, 
Porque eu boto o cerco, 
Quem vai não pode voltar!

N - Manoel, tu és criança, 
Só tens mesmo é pabulagem! 
Vejo que falar é fôlego, 
Porém obrar é coragem 
Juro que' de agora em diante 
Não contarás mais vantagem!

R - Meu pai chamava-se Antônio, 
Seu apelido era Rio; 
De uma enxurrada que dava 
Cobria todo o baixio 
Secava em tempo de inverno 
Enchia em tempo de estio.

N - Conheci muito seu pai, 
Que vivia de pescar,
Sua mãe era tão pobre, 
Que vivia de um tear 
Seu padrinho tomou você 
E levou-o para criar.

R - Onde mora o senhor, 
Que meu avô conheceu? 
Que eu nem me lembro mais 
Do tempo que ele morreu 
E você está parecendo 
Muito mais moço que eu!

N - Eu sei do dia e da hora 
Que nasceu seu bisavô,
Chamava-se Ana Mendes 
A parteira que o pegou 
E conheci muito o frade 
E o vi quando o batizou.

R - Bote sua maca abaixo 
Conte essa história direito,
Da forma que você conta 
Eu não fico satisfeito 
Como ver-se um objeto 
Antes daquilo ser feito?

N - Seu bisavô se chamava
Apolinário Cancão
Era filho de um ferreiro 
Que o chamavam Gavião
Sua bisavó Lourença 
Filha de Amaro Assunção.

R - Mas que idade tem você, 
Que me faz admirar? 
Conheceu meu bisavô 
Eu não posso acreditar, 
Assim destas condições 
Faz até desconfiar.

N - Seu bisavô e o avô 
Foram por mim conhecidos, 
Seu pai, sua mãe, você 
Antes de serem nascidos 
Já estavam em minha nota 
Para serem protegidos.

R - Que proteção tem você 
Para proteger alguém? 
Sua pessoa e os trajes 
Mostram o que você tem 
A sua cor e aspecto 
Esclarecem muito bem.

N - Eu protejo você tanto, 
Que o defendi de morrer 
Você se lembra da onça 
que um a vez quis lhe comer 
Que apareceu um cachorro 
E fez a onça correr?

R - Me lembro perfeitamente 
Quando a onça me emboscou 
Já ia marcando o salto 
Quando um cachorro chegou 
A onça correu com medo, 
Eu não sei quem me salvou...

N - Pois foi este seu criado 
Que viu a onça emboscá-lo 
Eu chamei por meu cachorro 
Para da onça livrá-lo 
Se lembra quando você 
Ouviu o canto dum galo?

R - Eu me lembro disso tudo 
Porque assim foi passado; 
Mas que idade tinha eu 
Quando esse caso foi dado? 
Eu era tão pequenino 
Quem eu pai teve cuidado.

N - Você tinha nove anos 
Foi caçar um novilhote 
Se entreteu com umas flores 
Que tinha lá no serrote 
A onça foi esperá-lo 
Para sangrá-lo no bote.

Riachão disse consigo: 
- De onde veio esse ente, 
Que de toda minha vida 
Conhece perfeitamente? 
Este, será que é o Diabo 
Que está figurado em gente?

N - O senhor pergunta assim 
De que parte venho eu... 
Eu venho de onde não vai 
Pensamento como o seu 
E saí do ideal 
Primeiro que apareceu!

R - Agora acabei de crer 
Que tu és o inimigo! 
Te transformaste em homem, 
Para vir cantar comigo, 
Mas eu acredito em Deus 
Não posso correr perigo!

N - Ainda não, lhe ameacei, 
Nem pretendo ameaçá-lo! 
Estou pronto a defendê-lo, 
Se alguém quiser atacá-lo 
Em minha humilde pessoa, 
Tem um pequeno vassalo!

R - Não quero saber de ti, 
Porque tu és traidor: 
Desobedeceste a Deus, 
Sendo Ele o Criador! 
Fizeste traição a Ele 
Quanto mais a um pecador...

N - Riachão, amas a Deus 
Sendo mal recompensado! 
Deus fez de Paulo um Monarca 
De Pedro um simples soldado 
Fez um com tanta saúde, 
Outro cego e aleijado!

R - Se Deus fez de Paulo um rei, 
Porque Paulo merecia 
Se fez de Pedro um soldado, 
Era o que a Pedro cabia: 
Se não fosse necessário, 
O grande Deus não fazia!

N - O teu vizinho e parente 
Enricou sem trabalhar; 
Teu pai trabalhava tanto 
E nunca pode enricar 
Não se deitava uma noite 
Que deixasse de rezar!

R - Meu pai morreu na pobreza, 
Foi fiel ao seu Senhor! 
Executou toda ordem 
Que lhe deu o Criador 
E foi um a das ovelhas 
Que deu mais gosto ao pastor!

N - Arre lá! Lhe disse o Negro. 
Você é caso sem jeito!
Eu com tanta paciência, 
Estou lhe ensinando direito 
Você vê que está errado, 
Faz que não vê o defeito!

R - É muito feliz o homem 
Que com tudo se consola! 
posso morrer na pobreza, 
Me achar pedindo esmola 
Deus me dá para passar 
Ciência e esta viola!

O negro olhou Riachão 
Com os olhos de cão danado,
Riachão gritou: - Jesus,
Homem Deus Sacramentado! 
Valha-me a Virgem Maria, 
A Mãe do Verbo Encarnado!

O negro, soltando um grito, 
Dali desapareceu. 
De uma catinga de enxofre 
A casa toda se encheu, 
Os cães uivaram na rua,
O chão da casa tremeu.

Riachão ficou cismado 
Com cantor desconhecido, 
Que, quando encontrava um, 
Tomava logo sentido 
O seu primeiro repente 
Era a Deus oferecido.

Essa história que escrevi 
Não foi por mim inventada: 
Um velho daquela época 
Tem ainda decorada. 
Minha aqui só são as rimas 
Exceto elas, mais nada!
 
 Material de um leitor recebido por e-mail referências citadas pelo remetente são:
BARROS, Leandro Gomes. A Peleja de Manoel Riachão com o Diabo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Literatura de Cordel, 2001. (Coleção Cordéis Raríssimos).
Revista Espaço Acadêmico -Nº 92- mensal- Janeiro de 2009- ANO VIII - ISSN 1519.6186

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